O Monstro da Indiferença
De tanto ver, a gente banaliza o olhar.
Vê, não vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia sem ver.
Parece fácil, mas não é.
O que nos é familiar já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe.
De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo porteiro.
Dava-lhe ” bom dia” e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia, o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara, sua voz, como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu.
Para ser notado, o porteiro teve que morrer.
Se um dia, no seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem.
Mas, há sempre o que ver: gente, coisas, bichos.
E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que um adulto não vê, pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho, marido que nunca viu a própria mulher.
Isso exige muito. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Otto Lara Resende
Tags: O Monstro da Indiferença
14 setembro, 2009 às 9:07
nossa amei essa mesnsagem!!!!!muito linda e verdadeira
14 setembro, 2009 às 19:05
Nossa, quando ouvi esta mensagem, comecei a pensar em toda a minha rotina e como eu nao reparo em tudo ao meu redor! Foi muito bom para o meu dia…
15 setembro, 2009 às 21:53
Pensamento lindo e maravilhoso, tão verdadeiro que chega doer o coração da gente, saber que estamos rodeados de pessoas assim, que nos ve todo tempo mas que infelizmente não nos nota.
BEIJÃO PARA VOCÊ. BOA NOITE!